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O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM O MERCADO VIDREIRO?

04/10/2018 UMA VISÃO LÚCIDA DA NOSSA ATUAL SITUAÇÃO

O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM O MERCADO VIDREIRO?

Para começar esse artigo é importante ressaltar alguns pontos importantes do setor vidreiro no
Brasil num todo, para que possamos refletir sobre os pontos que merecem destaque no âmbito
estrutural e entender no que a falta de atitude influencia na desorganização que o setor vive.

O setor vidreiro no país, analisado de ponta a ponta, é algo digno de estudo. Apesar de grande
parte do “câncer” ser conhecido, que é a falta de pulso firme de todos, de uma comunicação
alinhada entre os profissionais, gerando uma voz consolidada para brigar por bom senso quando
se acredita não haver, além da falta de órgãos contundentes de fiscalização, etc, existem
também alguns outros fatores que desfavorecem o setor de modo geral e ele se torna essa
bagunça.

Quando eu digo “bagunça” é por que estou analisando o setor vidreiro de forma macro, o que
é correto, pois são todos os elos juntos que formam essa corrente, independente se
determinado elo possui maior controle ou não; é a junção e a comunicação alinhada de todos
os elos que favoreceriam o mercado à crescer organicamente, o que não acontece!

Tudo começa com o governo burocrático, ineficiente, caro e lento. Essas são as reclamações
principais das indústrias de vidro, que está correto reclamar e pleitear melhoras, eu concordo,
porém é necessário entender que não se trata de um problema único e exclusivo delas,
tornando-as “coitadinhas e vítimas” desse governo opressor. Não! Muito pelo contrário, não só
não são coitadinhas, quanto todos nós somos envolvidos, estamos todos no mesmo barco,
navegando a mesma maré. E pelo contrário, elas possuem o antidumping ajudando o mercado
exclusivamente delas, um imposto altíssimo de proteção ao mercado local, reduzindo
importações do float e garantindo esse controle na mão de tão poucos.

O antidumping não favorece a cadeia tão quanto favorece a indústria, eles são os grandes e maiores favorecidos.
Entenda, e essa é uma opinião exclusivamente particular minha: Eu já trabalhei com comércio
exterior, por sinal sou formado nessa área e posso assegurar, o antidumping é sim uma medida
protecionista à indústria muito valiosa, pois sucumbe o mercado internacional de engolir os
produtores locais, principalmente os chineses. Mas ele só pode vigorar quando a indústria local
1) tem capacidade de atender o mercado de maneira confortável, 2) tem a responsabilidade de
trabalhar uma política de preços transparente, 3) possui opcionais de diversas fábricas,
estimulando a concorrência e ajustando o mercado pelo custo-benefício... e eu poderia citar
mais alguns pontos aqui, mas esses já são mais do que suficientes para comprovar o por quê o
antidumping atrapalha a nossa evolução vidreira numa análise mercadológica macro, analisando
o país como uma potência reprimida.

1) tem capacidade de atender o mercado de maneira confortável: Isso deveria ter, pois as usinas
possuem capacidade de produzir 6.680 toneladas por dia de vidros planos, o que é maior que a
demanda nacional e por isso sobra vidro. Porém, com a queda do consumo de vidros
impulsionado pela queda da construção civil desde 2014 as indústrias começaram a escoar a
produção para o mercado internacional, exportando o contingente excedido. Até ai ok,
compreensível e condizente. Mas que fizessem isso de forma ordenada e responsável, pois foi
exatamente nessa atuação que o mercado sentiu o desabastecimento em 2017 e o setor
bagunçou, ainda com reflexos atuais.

Exportaram mais do que devia, e sua obrigação que é atender o Brasil não o fizeram... é obrigação, repito: OBRIGAÇÃO, pois quando possuem a proteção do antidumping é como se o governo dissesse: “Vocês estão indefesos contra os
chineses, por isso vou ajudá-los para que possam atender o mercado nacional sem perder a
competividade e a saúde empresarial”, mas a partir do momento que fazem isso, gera
automaticamente um conforto pela não concorrência externa, e aumenta e muito a
responsabilidade da indústria do vidro a atender o mercado local, no exemplo, estou usando a
China, mas poderia ser qualquer país exportador.

2) tem a responsabilidade de trabalhar uma política de preços transparente: Não preciso nem
comentar isso... o vidro no Brasil estranhamente virou commodity, resumindo, se a fábrica A
tem maior eficiência que a fábrica B, ou se o vidro A é melhor que o vidro B, não importa, os
preços são os mesmos. Dificilmente os vidraceiros, muito menos o cliente final, tem o poder de
decidir se quer vidros Vivix, Cebrace, AGC ou Guardian, na verdade pouco importa, na grande
maioria dos casos, vidro é vidro, é assim que é, é assim que é tratado.

Os preços são semelhantes ou iguais, e sobre os aumentos, nem argumentar eu preciso, chegam sempre juntos. Eles devem
ter o mesmo sentido natural de mulheres que menstruam juntas quando passam a conviver.
Não é organizado, é natural, o que rege os aumentos de vidros é o ciclo da lua, aham!

3) possui opcionais de diversas fábricas, estimulando a concorrência e ajustando o mercado pelo
custo-benefício: Hoje no Brasil temos 4 indústrias, como já falado acima, que são Vivix, Cebrace,
AGC e Guardian. A oferta é baixa! O contra-argumento pode ser que só elas 4 já atendem a
capacidade nacional e ainda exportam. Ok, argumento válido se tivessem a responsabilidade de
garantir o mercado nacional, de trabalharem com transparência de preços e que o vidro não
fosse tratado como algo que não é (commodity).

O ajuste do mercado é feito em bloco, forçando
a cadeia a se adaptar, sem democracia, o que sugere um oligopólio.
Mas calma, isso não é só no Brasil, o mundo todo enfrenta esse bloco de grandes empresas que
se deslocam “juntas”, estima-se que 80% da produção mundial seja proveniente desse exclusivo
grupo de multinacionais, enquanto os 20% restantes ficam entre pequenas e médias empresas
regionais. Por isso que sim, abrir mercado é fundamental para democratizar.

O vidro é mais caro que outros materiais, pudera, por sua qualidade. A ideia não é baratear e
perder sua percepção “premium” no mercado, desde que entendamos seu custo e isso não seja
somente através da imposição ou de justificativas vazias.

Voltando ao assunto antidumping, a indústria de calçados no Brasil, por exemplo, tem esse
benefício contra importações chinesas, o que depois abrangeu quase alguns outros países
asiáticos por que a China desviava o caminho da logística mandando calçados pro Brasil via
Taiwan, em seguida o governo incluiu Taiwan na lista do antidumping e a China foi contornando
a costa (Filipinas, Vietnam e até Cambodja), até que o governo brasileiro incluiu quase que toda
a Ásia nessa política, rs (os Chineses não brincam em serviço).

Enfim, no exemplo acima, que é a indústria do calçado, há no Brasil uma variedade enorme,
várias fábricas, várias marcas, variação de preços, variação de qualidade, oferta abrangente à
demanda, etc... enfim, o antidumping foi instaurado realmente para proteger a indústria
nacional, e o livre mercado não se prejudica com isso, pois aqui dentro mesmo funciona bem o
organismo da competitividade. O que não é igual no mundo do vidro!

Os “lobistas”, se posso chamar assim, que viabilizaram tal antidumping nesse mercado, podem
agora contra-argumentar: “Mas na época de importações de vidro à todo vapor, as
importadoras subvalorizavam o vidro para burlar impostos, além de trazerem vidros especiais à
preço de comuns, etc, etc etc”.

Ok, concordo novamente que isso acontecia. Mas a solução da gripe não pode ser em não mais
sair de casa no frio, ao contrário, é justamente o frio que lhe ajudará a criar anticorpos, além é
claro dos medicamentos e cuidados médicos. Por isso a solução não poderia ser fechar o
mercado, e sim fiscalizá-lo. A RFB tem recurso e competência pra isso de sobra.

O dumping que disseram haver, em vidros, espelhos e toda a cadeira que possa estar incluída,
não representava necessariamente redução do preço do produto no mercado, e sim em maior
lucratividade pro importador, portanto, muitas vezes se ele burlava acabava absorvendo grande
parte do lucro da operação e não o repassava ao mercado.

A Abividro, Associação que representa 7 empresas do vidro plano (o maior segmento de vidro
do país), na verdade nem 7 empresas representam... pois uma é amiga da outra, Zezinho com
Mariazinha criaram juntos a Teresinha, e Antônia, apesar de estar no vidro plano, atende outro
mercado que não a construção civil. Enfim, no final mesmo, ela só representa 4, que são as
mesmas citadas acima, representação essa que envolve diretamente o setor que mais influencia
os transformadores e vidraceiros no país, que é a construção civil / engenharia, pois a cadeia
alimentar vive em torno dessa natureza.

Apesar de eu estar fazendo o papel de advogado do diabo aqui, quero deixar claro que não sou
especificamente contra o antidumping do vidro plano, eu sou contra a forma que isso tem
desenrolado. A balança comercial do vidro vinha há anos fechando negativa, merecia atenção...
Mas depois de feito, responsabilidade e supervisão são essenciais.

Os pontos chaves que julgo serem necessários são os já falados: 1) ter capacidade de atender o mercado de maneira
confortável, 2) ter a responsabilidade de trabalhar uma política de preços transparente e 3)
possuir opcionais de diversas fábricas, ou pelo menos de diversas linhas, estimulando a
concorrência e ajustando o mercado pelo custo-benefício, mas claro, sempre de acordo com as
normas vigentes do país. Dessa forma sim, toda e qualquer intervenção fiscal para favorecer o
mercado nacional seria muito bem-vinda.

O ano de 2018 está sendo complexo para o setor. Escrevo esse artigo em outubro e acabamos
de receber a notícia de mais um aumento, o terceiro em 5 meses, incrementos que chegam a
40% no período... o que é muito!

A justificativa é a produção do vidro estar indexada ao dólar, mas outros setores que também
se indexam à moeda americana estão muito longe desse aumento, como o aço, alumínio, etc.
Eles sabem que seu principal mercado é a construção civil, como o vidro, e o setor estando em
queda desde 2014, ainda com uma inflação abaixo dos 5%, não há justificativa cabível para
aumentos desproporcionais. A construção civil representa em média 80% do consumo de vidro
plano.

Ainda, o que engrandece a tamanha inconsistência são as usinas alegarem que dos principais
problemas enfrentados no primeiro semestre de 2018, somente o 5º deles é o câmbio,
perdendo pra taxa tributária, demanda interna baixa, falta ou alto custo de matéria prima e
dificuldades de logística.
Até que um dia lendo na internet me deparo com o Sr. Faldini, da AGC, declarando: “O setor
ainda é impactado por alterações de custos que interferem na estrutura de preços e, como é de
conhecimento notório, a fixação de preço é, por princípio e por decisão constitucional, livre”. Em
outras palavras: “Custos influenciam e até onde eu sei, faço com meu preço o que eu quiser!”.

Espero ter interpretado esse texto de maneira errônea, mas se não, ele deixa claro o
descompromisso no impacto dessas ações na cadeia. E pior, se fosse fato que as indústrias
agissem isoladamente, ótimo, livre mercado neles e jogo que segue. Mas essa movimentação
que repito, é em bloco, é triste, bem triste!
Ainda não acabou não! As indústrias acabam de se posicionar perante as eleições dizendo que
o novo presidente precisa estimular a livre concorrência, rsrs, hilário!


1 minuto de silêncio!

 

Bom gente, só pra entendermos... No final da década de 90 o mercado mundial de vidros sofreu
uma retração pela substituição de produtos por plástico, e de lá pra cá os plásticos cresceram
muito em tecnologia.

O mercado brasileiro em paralelo está atrasadíssimo quando o assunto é ferragens e soluções
pra vidro. Nossas soluções são de décadas atrás e temos baixíssima taxa de inovação.
Além disso a cadeia do vidro está uma bagunça como eu disse, zebra comendo leão, leão
comendo folhagens e por isso os insetos morrem de fome. A cadeia não é respeitada,
beneficiadoras vendendo tampo de vidro para a Dona Lurdes, 56 anos, que conquistou seu
sonho da casa própria próximo à terceira idade e sonha em ter uma mesa linda de vidro para
receber seus filhos e netos no domingo. Com perdão ao exemplo, mas é exatamente isso que
está acontecendo.

Enquanto todos não se colocarem em seus devidos lugares, com ética e seriedade, todos vão
perder! Todos! E vamos perder para setores mais qualificados (plástico, moveleiro, etc), que
apresentam inovação atrás de inovação e principalmente, entendem, respeitam e regulam o
ecossistema. Empresa que não respeita é popularmente “boicotada”, vista com maus olhos.
Defeitos todos os setores tem, não deveria ser diferente com o nosso, mas a visão que tenho é
viver na época medieval, tudo na base da guerra, o que garante seu território é guerra, jamais a
regra. O “meu é esse, seu é aquele” não existe, e assim estamos enfraquecendo a cadeia
alimentar dessa selva de pedra (ou de vidro) que vivemos.

A indústria precisa ser transparente e responsável com toda sua cadeia. Os transformadores
precisam fazer o que seu nome diz, transformar! E o vidraceiro precisa ser olhado, visto,
lembrado, cuidado, treinado e valorizado.

Se o ecossistema for respeitado, as oportunidades surgirão dos vidraceiros, naturalmente
subirão para os transformadores, em alguns casos em seguida para as distribuidoras, se as
incluirmos nesse exemplo, e obviamente, no fim, para a indústria. O mercado, a demanda e a
concorrência vão continuar existindo de qualquer jeito, mas com todos ganhando, e principalmente, com você trabalhando focado, independentemente de onde esteja, com tempo
para pensar em inovação e melhorias.

Beneficiadora, deixa o tampo de mesa da Dona Lurdes pro vidraceiro. Foca em melhorar a
receita do seu forno, que nem vou entrar nesse mérito meu Deus, se não esse artigo fica maior
do que já está.
E todos nós, todos da cadeia, de ponta à ponta, conscientizarmo-nos. O futuro lindo e brilhante
do vidro depende da nossa voz de hoje.


Oremos!


Artigo escrito por Felipe Cassola, diretor executivo e estratégico do Grupo Success, hall de
empresas incluindo
www.lukk.com.br, www.exclusivv.com.br, www.izboard.com.br,
www.uauglass.com.br, www.multpainel.com.br e www.successimports.com.br
.

Fontes: Confederação Nacional das Indústrias / Abividro / Revista Vidro Plano / ABRAVIDRO / Camex /
Comex do Brasil / Caderno Setorial Banco do Nordeste / Panorama Setor de Vidro CNQ CUT


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